Esse tal poder público
Joselani Soares*
Dias desses, durante comentários em sala de aula sobre ações em prol do meio ambiente, uma frase bastante comum foi dita por uma colega de classe: “a sociedade civil toma iniciativas, com a criação de ONGs, Oscips, porque o poder público não faz nada”. Resolvi, então, entrar em rota de colisão com essa opinião. Defendi cegamente o poder público? Não foi exatamente isso. Mas, em vez de focar no mérito da questão, trouxe à luz uma outra discussão.
Afinal, o que é esse tal poder público? Seria um robô de proporções descomunais, construído por uma mente maligna, que não serve para nada além de travar o bom funcionamento da sociedade, andar a passos lentos e pesados, distribuindo perversidades e destruindo qualquer boa intenção que venha da sociedade civil?
Quem é que compõe o poder público se não pessoas? E quem são elas? São pessoas que saíram da sociedade, aliás, boa parte delas foi eleita para compor o poder público pela própria sociedade civil. Passamos recentemente por um processo eleitoral, e todos, efetivos do poder público ou membros vitalícios da sociedade civil, puderam escolher prefeitos e vereadores. Esses serão os representantes máximos do Executivo e do Legislativo em âmbito municipal. Ou seja, eles estarão à frente do tal poder público em nossas cidades.
E se o poder público não funciona, ou pelo menos não funciona como deveria, a sociedade não é co-responsável por isso também? Não cabe aí um acompanhamento mais efetivo sobre o que é feito ou deixado de fazer pelo poder público? Não cabe também perguntar qual a participação e a responsabilidade da sociedade civil sobre determinados problemas enfrentados em nosso cotidiano por conta do poder público?
A verdade é que da mesma maneira que se banalizou dizer que “o homem destrói os recursos naturais”, “o homem está acabando com o planeta” sem se incluir na idéia – afinal, que homem malvado é esse que sozinho comete tanta atrocidade? – fala-se da “falência” do poder público. Seria muito mais fácil encontrar respostas para alguns questionamentos se buscássemos em nós mesmos as explicações para tantas inações e inoperâncias.
Um exemplo prosaico é ver a quantidade de lixo jogado pelas ruas – é “o homem” esquecendo as boas maneiras. Quando uma chuva forte vier, esse lixo irá para as bocas-de-lobo, entupirá as galerias de águas pluviais e enchentes poderão ocorrer. E sabe o que mais ouviremos nesse período? Que o “poder público” não faz nada. Nesta hora nem lembramos que “o homem” tem participação nisso. O homem que provoca tantos problemas nas cidades, que destrói o meio ambiente sou eu, é você que está lendo esse artigo neste momento, ou seja, somos todos nós.
Será que reclamar do poder público não virou muleta, a tábua de salvação para não nos culparmos por nada? É muito mais fácil dizer que o causador dos problemas é o outro, que, invariavelmente, é personificado no poder público.
Ao não abrir uma discussão inclusiva, na qual todos os atores possam exercer de fato seus papéis e que cada um chame para si a responsabilidade que lhe cabe, a sociedade, do chamado cidadão comum aos representantes do poder público, continuará com discursos falaciosos que pouco contribuem para a construção de um mundo mais tolerante, coerente e, sobretudo, sustentável. Sem pensarmos nestes aspectos só restará ao homem, aquele destruidor implacável que não sabemos ao certo quem é, reclamar do tão pavoroso poder público e tudo continuará como está. Ou, dentro do que se desenha como mais provável a partir de uma perspectiva ambientalista, com fortes tendências a ficar cada vez pior.
*Joselani Soares é jornalista e pós-graduanda em Educação Ambiental
(O blog aceita a contribuição de textos de colaboradores.)
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