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Sem medo do futuro
Chega a ser triste, lamentável, assistirmos à postura – ou falta de – que a oposição assume neste início de ano, e que prenuncia a inquietação e o desespero que, infelizmente, deverão pautar as discussões em torno das eleições de outubro. O mais recente exemplo, e bastante revelador, veio por parte do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no jornal O Estado de S. Paulo, no domingo, dia 7. Sob o título “Sem medo do passado”, FHC ofusca sua própria trajetória e comete um artigo em que as falácias se multiplicam e evidenciam como, numa situação de desespero, o discurso trai a si mesmo e as argumentações não se sustentam. Nesse sentido, menospreza a inteligência do leitor – “estratégia” que, em um cenário pré-eleitoral, subestimar o (e)leitor pode ser sinônimo de suicídio. Até mesmo em termos de estilo FHC parece se distanciar do “príncipe dos sociólogos”. O título facilmente pode ser interpretado como nostalgicamente ingênuo, um pretenso pedido para que voltemos aos tempos neoliberais pré-Lula – mas o próprio FHC, quase contraditoriamente, conclui que “eleições não se ganham no retrovisor”. Sim, sua constatação pode bem ser rebatida com o contrário: “Sem medo do futuro”. FHC acusa o presidente Lula de “inventar inimigos e enunciar inverdades”, mas incorre ele mesmo em invenções e inverdades. Com uma diferença básica: se Lula é movido pelo fato de passar por “momentos de euforia”, FHC o faz movido por “momentos de desespero”, para dizer o mínimo. Outros trechos poderiam ser igualmente usados em referência ao ex-presidente tucano: ele “lamenta que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos” – ora, FHC, lamentamos também que o senhor se deixe levar por impulsos tão toscos e perigosos. E, se Lula “possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira”, FHC também possui “méritos de sobra”, legítimos e nada desprezíveis. Como a ministra Dilma Rousseff já afirmou, não se trata de ignorar realizações do governo FHC, ou se apropriar delas. E Dilma faz o que o ex-presidente pede (mas que ele mesmo omite): “contextualizar” informações: “sem sombra de dúvida, houve passos no governo anterior. Não estou desmerecendo ninguém; estou dizendo que nosso caminho é melhor”, diz a ministra. Talvez o que fique mais patente é a dificuldade de FHC em reconhecer como, com Lula, o governo tenha mudado o papel do Estado. No auge da crise mundial, no ano passado, o Brasil conseguiu minimizar os efeitos incentivando o consumo – na contramão de todos os prognósticos, os bancos públicos tiveram uma ação fundamental, liberando empréstimos quando os bancos comerciais e o crédito internacional refreavam cada centavo. E o mais doloroso para FHC, o que possivelmente tenha lhe rendido noites sem sono, foi ver a nata do capitalismo conferir a Lula o “Prêmio Estadista Global”, em pleno Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça). É a primeira vez que este prêmio é entregue, nas 40 edições do fórum. Lula não pôde receber o prêmio, mas o presidente-executivo do Fórum Econômico, Klaus Schwab, resumiu: “o presidente do Brasil demonstrou um verdadeiro comprometimento com todos os setores da sociedade. O presidente Lula é um modelo a ser seguido pela liderança global”. Se a imagem de Lula em âmbito mundial é mais do que evidente e positiva, ela reflete o sentimento de aprovação do povo brasileiro. Mesmo a contragosto, e mesmo para uma significativa parcela da população, a aprovação ao governo Lula é recorde, e um fato bastante indigesto – para dizer o mínimo – aos tucanos e democratas. Quase constrangidos, são obrigados a reconhecer que “nunca antes, na história deste país”, um presidente brasileiro alcançou tanto sucesso no exterior e tanta aprovação “em casa” – mais de 80%. Para completar, FHC vê seu principal reduto no “olho do furacão”: violência crescente no estado de São Paulo, mais de 40 dias de chuvas ininterruptas, bairros alagados na capital e com riscos iminentes de epidemias. Nesta segunda-feira, 8, o governador Serra e o prefeito Kassab perdem o prumo e põem a polícia, com direito a gás pimenta, para reprimir com violência uma manifestação pacífica dos moradores alagados. Some-se, portanto, ao desespero diante da crescente aparição de Dilma no cenário eleitoral, o desespero de medidas absolutamente antidemocráticas, e os resultados drásticos da falta de políticas públicas eficientes. FHC tem espaço garantido nos principais veículos de comunicação. É de se lamentar, no entanto, que a retórica, por mais elaborada que seja (virtude, aliás, que já foi mais bem exercida pelo ex-presidente), não se sustente. Ou apenas culmine em constatações como “o eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças”, para, inexplicavelmente, arrematar com um adversativo “mas”: “se o o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa”. De nossa parte, trocaríamos o “mas” por “e” – mas é sintomática a opção feita pelo ex-presidente. Desespero somado à vaidade é uma mescla explosiva, e a maior vítima é o senso crítico.
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TAV: um novo marco para o Vale
Nosso Vale do Paraíba foi, e é, protagonista e palco de momentos históricos diversos. Todos os ciclos econômicos do Brasil tiveram a participação das cidades valeparaibanas, e nossa maior riqueza consiste exatamente no fato de, ao lado desse protagonismo conjunto, nossas cidades preservarem suas identidades, sem descaracterizar suas vocações e tradições. Em que pese a inexistência de um projeto amplo de desenvolvimento regional, com uma visão de conjunto das cidades (principalmente por parte do governo estadual), vivemos hoje mais um desses momentos: o TAV (Trem de Alta Velocidade) vai cortar todo o Vale, e inevitavelmente trará impactos – econômicos, sociais, ambientais – ainda impossíveis de serem mensurados. Pela dimensão e pelo ineditismo, é natural que o TAV provoque discussões acaloradas. Da mesma maneira, é absolutamente legítimo que alguns municípios pleiteiem parte dos investimentos diretos – no total, são R$ 35 bilhões. Todas as intervenções e os impactos de um projeto dessa magnitude, no entanto, serão inevitavelmente compartilhados, em maior ou menor grau, não apenas pelas cidades valeparaibanas, mas irão se estender a toda a região metropolitana de São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro, ao litoral paulista e carioca, ao sul de Minas Gerais… É imprescindível que as discussões em torno do TAV sejam pautadas, fundamentalmente, por uma visão ampla, dimensionadas proporcionalmente à grandeza do projeto. Não podemos admitir que interesses mesquinhos e bairristas limitem o debate, com uma visão míope e anacrônica que vai de encontro à modernidade e à tecnologia que moldam todo o projeto. No trecho paulista do Vale, caberá ao consórcio vencedor decidir em qual cidade será instalada uma das estações – uma já está definida, em Aparecida. Critérios técnicos e de viabilidade econômica, custos operacionais e impactos socioambientais, entre outras variáveis, serão consideradas para a decisão final, que deverá ter ainda o aval do Governo Federal. Chega a ser ingenuidade admitir a hipótese de que ingerências pessoais ou interesses político-eleitorais possam interferir em uma decisão desse porte. Seja Jacareí, seja São José dos Campos, seja qualquer outra cidade que venha a receber a estação do TAV, só precisamos aplaudir. Todo o entorno da estação – e, volto a ressaltar, entenda-se por “entorno” as cidades vizinhas, toda a região – vai exigir inúmeros equipamentos, como oficinas de manutenção, prestadores de serviços, intervenções urbanas e viárias, só para citar alguns. Novas empresas serão atraídas pelo projeto, que prevê ainda a transferência de tecnologia para o Brasil – ou seja, incluam-se ainda novos pólos de pesquisa, ciência e tecnologia. O Vale do Paraíba segue inexoravelmente um processo de conurbação, e nossas cidades são totalmente interdependentes. Moradores transitam diariamente entre mais de uma cidade, dividindo seu cotidiano – e sua cidadania – de trabalho e de lazer por todo o Vale. Da mesma maneira que esses vínculos naturais e de convivência interpessoal crescem e se fortalecem entre os valeparaibanos de todas as cidades, precisamos encarar nossos desafios e compartilhar os benefícios regionalmente. Podemos encarar o TAV sob os mais diversos ângulos. Mas fiquemos com a constatação de que um eixo que corte todo o Vale exige uma visão regional, que considere os mais variados aspectos. O TAV se apresenta, assim, como uma oportunidade única para que seja um verdadeiro ponto irradiador de um novo processo de desenvolvimento regional. Todo o Vale do Paraíba merece.
[Artigo publicado no valeparaibano de 30/01] |
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