|
Economia de “formiguinha”
Empreendedorismo é uma palavra que entrou na moda há anos anos e, ao que tudo indica, veio mesmo para ficar. E o Brasil sempre foi reconhecido como um país de empreendedores – seja pela criatividade inata do nosso povo, seja por necessidades pontuais de uma ou outra região. Ou, ainda, em épocas de crise, por uma questão de sobrevivência. Dados históricos apontam, no entanto, a maioria absoluta das micro e pequenas empresas não consegue sobreviver ao primeiro ano de vida. A falta de planejamento e de experiência de muita gente que decide por montar um negócio próprio é apontada como o principal motivo para essa “vida curta”. Iniciativas como as ações do Sebrae, como palestras e cursos, o incentivo crescente ao cooperativismo e as ações do Banco do Povo, simplificando e otimizando formas alternativas e/ou mais acessíveis de crédito, porém, parecem que estão revertendo esse quadro. É o que indica uma pesquisa recém-publicada, realizada pelo Sebrae/Global Entrepreneurship Monitor, que abrangeu nada menos que 43 países. Segundo a pesquisa, a sobrevida das pequenas empresas aumentou significativamente no Brasil: em 2001, 35% dos empreendedores tinham negócios abertos há até três anos e meio; em 2008, essa taxa aumentou para 76%. E mais: o Brasil aparece mesmo bem na foto — a taxa de empreendedorismo, que calcula o número de pequenos negócios abertos em relação à população, foi em média 76% maior que a de outros países. O Banco do Povo merece atenção especial nesse processo. A agência de Jacareí já se tornou referência para toda a região, sendo procurada por representantes de outras cidades para conhecer o funcionamento daqui, notoriamente um sucesso. Vejamos apenas alguns números: a unidade de Jacareí ficou em terceiro lugar no Estado de São Paulo em número de contratos realizados, pelo segundo ano consecutivo, com mais de 500 operações entre 2007 e 2008. Desde sua criação, mais de R$ 4 milhões já foram repassados em pequenos empréstimos. Resumindo: ao mesmo tempo em que as grandes empresas anunciam investimentos volumosos e ganham publicidade e visibilidade, as micro e pequenas empresas tem uma participação fundamental na economia da cidade – são estas, aliás, as maiores geradoras de empregos. Incentivar cada vez mais a criação e a manutenção desse setor da economia é, portanto, fundamental para o desenvolvimento não apenas de Jacareí, mas do estado de São Paulo e do Brasil. |
Índice de civilidade
Leio, no blog do Mílton Jung, um texto do jornalista Fernando Gallo. Ele propõe que, ao lado do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), passemos a avaliar nossa sociedade pelo IC (Índice de Civilidade). É para se pensar – no final, ele conclui que, na verdade, tal índice seria bem menos complicado de se medir se nos lembrássemos que bom senso, gentileza, generosidade são valores tão importantes quanto esquecidos. E eu, como estudante de arquitetura e urbanismo, vejo ainda que ele toca em pontos de como as cidades foram construídas de maneira a deixar ainda mais esses valores de lado. Reconstruir as cidades, mas também nos reconstruirmos, é um passo valoroso para que ampliemos nosso IC. Tomo a liberdade de reproduzir o texto na íntegra. Um filósofo – não sei qual – disse certa vez que o grau de civilidade de uma cidade pode ser medido pela largura de suas calçadas. A largura de suas calçadas, quem poderia imaginar?, e no entanto faz tanto sentido, mais espaço para as pessoas, menos para as máquinas, abrir lugares para os calçados, que barulho não fazem, ou fazem menos do que motores, engrenagens, e toda sorte de componentes ruidosos que se põem a invadir os nossos ouvidos, mal não haverá em mais dignidade ao trânsito dos pedestres, tão alijados do processo de ir e vir nessas calçadas estreitas, a desviar uns dos outros, dos postes, a transitar pelo meio-fio, o risco de cair na pista e lhe passarem as rodas por cima a qualquer momento. A largura das calçadas deveria integrar um índice de civilidade, mais ou menos nos moldes desse que chamamos IDH, utilizado pelas Nações Unidas para auferir o desenvolvimento humano nos países, alvissareiro que pensadores bem intencionados tenham conseguido estabelecer alguma humanidade e ciência nisso que temos chamado economia, e que trata tudo tão vagamente, o mercado, o crescimento e tantas outras palavras que de exatas nada têm, mas nos perdemos um pouco quando falávamos de nosso IDH, ou melhor, de nosso IC, Índice de Civilidade, este muito menos complexo do que aquele, sem fórmulas matemáticas nem metodologias tão acuradas, vamos nos valer apenas de nossa observância, nossa vivência, disso que alguns chamarão empirismo. Estando certo que o ponto de partida de nosso índice serão as calçadas, podemos passar sem grande dificuldade para os outros componentes, mais difícil é começar, usaremos este chavão para deixar claro que as palavras têm esse poder de por em ordem os raciocínios, que os pensamentos vão se encadeando à medida que os vamos imprimindo no papel, embora papel disséssemos na época das máquinas de escrever, agora deveríamos dizer LCD, sigla anglófona para as telas modernas de computador, veja o leitor que dizíamos que os pensamentos vão se encadeando à medida que o texto vai saindo - diremos assim para simplificar - e acabamos por nos dispersar. Vamos logo, então, Machado dizia que o leitor tem pressa, embora a pena corra devagar, não é o nosso caso, blogs, ao contrário dos livros, não devem se prestar a longas divagações. Gostaríamos de ver dobrado o tempo em que permanecem abertos os faróis de pedestres, mal eles têm permitido que nós cruzemos as ruas, que dirá os mais sedentários, as velhinhas, as pessoas com restrição de mobilidade, essas gentes para quem pouco serve esse sistema de governo a que nos habituamos chamar de democracia, talvez devêssemos chamá-lo oligocracia, pouco tem servido à maioria, que dirá às minorias. Incluiremos também no IC as filas, tanto de um lado quando do outro, deixem-nos explicar, daquele outro lado do balcão estão bancos, supermercados, redes de comida rápida, instituições que vivem a nos privar de um de nossos bens mais preciosos, o tempo, a saber, tão valioso em nossos dias que consta do dito “quem trabalha não tem tempo pra ganhar dinheiro”, muito haveria que se dizer sobre esse ditado, não fosse o tempo do querido leitor tão precioso. Deste lado do balcão, por sua vez, estamos nós, que temos desrespeitado a ordem das filas, seja descaradamente, somando-se a ela pela frente ou pelo meio, seja saindo de posições desfavoráveis para abrir uma nova fila quando um novo caixa é aberto. Neste caso, averiguará o IC o quanto aqueles estarão nos privando de tempo e o quanto nós teremos respeitado a ordem original de chegada, costume um tanto medieval, mas não haverá nada mais meritório nestes casos do que simplesmente chegar primeiro. Falávamos sobre a preciosidade do tempo, e será apenas por este motivo que, ao menos por ora, estas linhas vão escassear, há que haver bom senso para não cansar a platéia, embora muito mais houvesse para dizer. Uma consideração ainda antes de partirmos: talvez esteja o leitor a pensar em como pensamos implementar todas as proposições apresentadas, se por força da lei, ao que recordaremos tratar-se de civilidade, civilidade que se faz com bom senso, gentileza, generosidade e outros que andam por aí escanteados, mas que nunca se fizeram por força da lei, senão pela bondade humana. Fernando Gallo é jornalista da rádio CBN e um dos autores do Blog Miradouro |
| | |
|
O que é RSS?