No meio da revolução

Sempre que a gente faz aniversário é um momento propício para reflexões: mais um ano se passou, o que fiz, o que estou fazendo, será que estou no rumo certo? Podem parecer reflexões até juvenis, mas ainda bem que a gente mantém um certo espírito juvenil e se faz essas perguntas, de vez em quando. E, quando a data é “redonda”, parece que tem um simbolismo maior. Pois é: completei 40 anos nesta segunda-feira, dia 30, e me vi diante dessas perguntas básicas.

Não quero entrar na questão “existencial” ou qualquer coisa do tipo – nem teria capacidade para tanto. Só queria registrar algumas observações do que tenho vivido e aprendido, sem nenhuma pretensão de querer esgotar aqui o que isso queira dizer. Quero falar, principalmente, do advento de uma era que, para mim, tem se mostrado fantástica. Para muitos isso já é fato há anos, mas de alguns meses para cá tenho me envolvido mais com algumas descobertas como o Twitter e o Facebook. Sei que cheguei bem mais tarde do que muita garotada, mas quero só registrar a minha impressão pessoal dessas redes sociais, e particularmente nesse momento pré-eleições.

Essas ferramentas concretizam um ideal de liberdade de expressão inimaginável para meus pais. A garotada de agora já nasceu com tudo isso, e é natural ter canais próprios de expressão, sem limites. Para a minha geração, e as mais antigas, é uma revolução sem tamanho. Pela primeira vez no Brasil, a importância das redes sociais e de outras ferramentas possibilitadas pela internet — com o reconhecimento do presidente Lula, que convocou a militância “virtual” (que de virtual não tem nada) para assumir essa responsabilidade – é uma realidade a que ainda estamos tentando nos adaptar.

Vivemos, hoje, um momento histórico, que ficará marcado, no futuro, como a Revolução Industrial ou, sem exagero, o Renascentismo e as Grandes Navegações. Em apenas algumas dezenas de anos, o progresso que a internet propiciou em termos de comunicação (e que deixou os meios tradicionais literalmente perdidos) foi infinitamente maior do que o que assistimos em séculos!

É compreensível que tudo isso traga conflitos, seja entre gerações, seja principalmente entre a chamada “elite”, que historicamente é a detentora do conhecimento. Quando vemos ferramentas que permitem e incentivam o compartilhamento de informações e de conhecimento, sem depender do aval dos “poderosos”, vemos que estamos realmente diante da mais fantástica revolução: o acesso ao conhecimento está aberto a todos, sem distinção. Querem exemplo maior de democracia?

Mas, ao mesmo tempo, o mundo parece correr mais rápido. Ainda que tenhamos a consciência de que somos cada vez mais frágeis, essa conectividade parece nos oferecer a pretensão da “vida eterna”, um falso Santo Graal. É curioso: o imediatismo das mensagens se junta à pretensa eternidade dos posts nos blogs e afins, e obscurecem a nossa consciência de finitude: agimos muitas vezes como se fôssemos eternos, incentivando apegos materiais e a ideia de domínio do mundo.

Quero crer que não seja assim. Temos, pela primeira vez, a oportunidade de cada um escrever e fazer a sua própria história, e compartilhar com os outros livremente, sem barreiras. Nossa limitação é somente a nossa consciência.

Estrada Real: um rico passeio

Tiradentes, Mariana e Ouro Preto são apenas algumas cidades históricas do Ciclo do Ouro, e tive a grata oportunidade de visitá-las há alguns dias junto com a Suzi, minha esposa. Ainda que tenha sido uma viagem mais curta do que desejávamos e que o roteiro merecia, não posso deixar de registrar e compartilhar um pouco do que pudemos ver: história, cultura, arquitetura, natureza, entre outros aspectos, compõem harmonicamente um roteiro riquíssimo, que vale a pena visitar. O termo “riquíssimo” não é à toa: na segunda metade do século 17, antigas e toscas picadas abertas por índios e bandeirantes começaram a se transformar e ganharam um movimento absurdo para a época, tornando-se rota obrigatória para o escoamento de uma riqueza extraordinária descoberta nas Minas Gerais. Nascia a chamada Estrada Real, ou Caminho do Ouro.

Se, naquela época, os diamantes e ouro explorados pelos portugueses fizeram a fortuna da Corte Real, hoje tenho a certeza de que o que ficou é de uma riqueza enorme, de um valor inestimável. Em primeiro lugar, confesso que fiquei impressionado com o que encontrei ao longo do caminho: a bela paisagem, exuberante, mostra como Deus foi pródigo em belezas naturais na região. Ainda que as agressões a essas belezas tenham se multiplicado ao longo dos anos – séculos? –, a infinidade de atrações mostra um potencial enorme que vem sendo explorado pelo chamado “turismo de aventura” – este, graças a Deus, feito de maneira razoavelmente sustentável.

Conta-se que as primeiras picadas que deram origem ao Caminho do Ouro começaram a ser abertas muito antes da chegada dos primeiros portugueses. Os índios goianás de Taba-etê (nossa vizinha Taubaté) acreditavam que as areias de Paraty tinham efeito medicinal e, para tratar da saúde, abriram as primeiras trilhas rumo ao litoral sul do Rio de Janeiro. A elas se uniram as rotas traçadas pelos bandeirantes que, partindo de São Paulo, corriam para o interior do País em busca das riquezas. Os contornos de estrada vieram depois de 1694, com a descoberta do ouro na região de Vila Rica, o berço da Inconfidência Mineira que passou a se chamar Ouro Preto.

No trajeto, chama a atenção a quantidade de pequenas cidades, uma após a outra, sempre reforçando uma característica marcante do povo mineiro: a hospitalidade e aquele jeitinho bastante especial. Possivelmente, cada cidadezinha é herança dos pequenos pousos que as tropas de mulas faziam no trajeto de Ouro Preto ao porto de Paraty – a Estrada Real tem mais de 1.000 quilômetros, passando por 177 cidades de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro.

(Nosso passeio foi mais modesto, e fizemos cerca de 600 quilômetros. Ainda assim, outra surpresa: em todo o trajeto, apenas um pedágio. É sintomático que tenha sido na via Dutra, em São Paulo, onde o governo do PSDB e suas concessões conseguiram multiplicar o número de praças de pedágio de maneira escandalosa – desde 1998, quando começaram as concessões, foram inauguradas 112 praças de pedágio (média de uma a cada 40 dias), enquanto em todo o país foram 113…)

Mas, voltemos à Estrada Real. Saindo da Dutra, na altura de Cachoeira Paulista, seguimos em direção a Passa Quatro e participamos do casamento do meu primo Jairo — belíssima festa, com a cara do querido povo mineiro. No dia seguinte fomos a Tiradentes e, na sequência, a Ouro Preto. Por este caminho é preciso passar por Ouro Branco, e a impressão que tivemos é a de que todos que por lá passam perguntam sobre o caminho de Ouro Preto, deixando Ouro Branco apenas como passagem e perdendo muito do que a cidade oferece do ponto de vista turístico – mais um exemplo das “pequenas riquezas” espalhadas pela Estrada Real e que merecem uma atenção e divulgação maiores. Ao longo do caminho, além das belas paisagens, as estradas estão ótimas e ainda com obras em vários trechos. Mas seguimos para Ouro Preto, chegando ao hotel exatamente às 14h24 – fomos correndo assistir ao jogo do Brasil e Chile.

No dia seguinte, com um guia turístico, conhecemos toda a cidade de Ouro Preto e também a cidade de Mariana. É fundamental ter um guia para conseguir conhecer estas cidades num espaço pequeno de tempo, especialmente as principais igrejas, as obras de Aleijadinho, de seu pai e do Mestre Ataíde. A cidade de Mariana também se destaca por sua história e por manter uma praça com Igreja, Pelourinho, a Câmara e Casa de Cadeia. Esse espaço marca o período da escravidão de forma clara e é uma maneira de não esquecermos de como tratamos nossos irmãos negros.

A cidade de Ouro Preto é para deixar qualquer um impressionado: a arquitetura barroca das igrejas, as obras do Aleijadinho, as belas pinturas feitas nos tetos da Igreja, a maioria do Mestre Ataíde, as casas e ruas que marcam a história desta importante cidade brasileira devem ser motivo de orgulho de todos nós. A igreja do Pilar é a principal obra da cidade, pela quantidade de ouro em seu interior e por um dos acervos mais representativos do período barroco. Em segundo, destaco a igreja de São Francisco de Assis, pela pintura no teto do Mestre Ataíde.

É muito difícil descrever as emoções que este passeio proporciona, mas posso afirmar que vale muito ter contato com a história dessas cidades nos mais variados aspectos: desde o que se refere à exploração por nós sofrida pelos portugueses à riqueza das obras barrocas, tudo marcado pela força da religião católica naquele período, suas motivações e ligações com a Corte Portuguesa. Tudo, somado, creio que não haja outra região que concentre tantos exemplares em matéria de obras, construções e riqueza arquitetônica, principalmente se considerarmos quase tudo foi construído durante o século XVIII, sem dispor de modernas técnicas construtivas. A Estrada Real concentra, sem dúvida, um potencial gigantesco ainda a ser explorado – é impossível fazer um breve relato como esse sem repetir o termo “riqueza”, que remete ao ouro do passado, antes concentrado em poucas mãos, mas ao mesmo tempo ilustra o quanto existe de belo e diverso a ser explorado e compartilhado por todos nós, nos mais variados segmentos: turístico, histórico, cultural, religioso, ecológico, gastronômico, rural, de negócios e de aventura.

Cuidando da própria casa

Se o século XX será lembrado como um marco na industrialização e na economia de mercado que, se bens trouxeram, foram fomentadas por uma devastação extrema dos recursos naturais e em uma nunca vista concentração de poder e capital, temos um desafio urgente para este século XXI: tentar, pelo menos, minimizar esses efeitos danosos já herdados e propiciar uma distribuição mais justa dos bens, a partir de exploração e manejos mais adequados dos recursos naturais.

A ação predatória, e até promíscua, do meio ambiente acendeu alarmes apocalípticos em todos os setores da sociedade. Em que pesem os danos irreversíveis, ainda há tempo de nos movermos e agirmos para recuperar o que é possível e preservar riquezas naturais imprescindíveis à nossa própria sobrevivência. Aliar compromissos éticos a um senso estético – no mais amplo sentido – torna-se urgente: corremos o risco de condenar as futuras gerações e sacrificar patrimônios universais, como a biodiversidade, se não nos conscientizarmos e agirmos aqui, e agora.

Uma simples consulta ao dicionário nos mostra que o termo “economia” tem, em primeiro sentido, o “gerenciamento de uma casa, especialmente das despesas domésticas; ciência que estuda os fenômenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais necessários ao bem-estar; aproveitamento racional e eficiente de recursos materiais”, completando, em sentido poético, sobre a “disposição, ordem, arranjo, de um discurso, de um poema”.

Sintomático que o termo “ecologia” só venha a surgir no início do século XX. A partir da mesma raiz grega, “oîkos” (“casa”), amplia o conceito original do ambiente “doméstico” para “as relações das comunidades humanas com o meio ambiente”, e as “relações recíprocas entre o homem e seu meio moral, social, econômico”.

Economia e ecologia, portanto, não são, em nenhum momento, excludentes. O desenvolvimento e o progresso, quase sempre vistos como um tanto predatórios, têm, fundamentalmente, os mesmos princípios. E se temos no dia 5 de junho uma data simbólica, do Dia Mundial do Meio Ambiente, temos a oportunidade de refletir sobre o que, efetivamente, estamos fazendo para conjugar esses princípios.

Jacareí preparou uma extensa programação com este objetivo. Realizamos a Semana do Meio Ambiente de Jacareí com uma série de eventos que vão desde dinâmicas com crianças a roteiros turísticos – incluindo o Viveiro Municipal e as obras do projeto Turi Limpo (que vai elevar o índice de tratamento de esgotos da cidade de 20% para 70%) – passando por uma integração com áreas verdes como o Parque da Cidade, com oficinas de yoga, tai chi chuan e origami, além de palestras e discussões técnicas versando sobre políticas de resíduos sólidos e saneamento, entre outras.

No Parque da Cidade, um grupo de plantão poderá tirar dúvidas sobre a gestão e reciclagem do plástico, resíduos eletrônicos e óleo, em parceria com o Ciesp. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente também estará expondo trabalhos de educação ambiental e plantas medicinais, realizados com as crianças da rede municipal de ensino.

A questão educacional, aqui, ganha valor preponderante: ao mesmo tempo em que, a partir de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com empresas como a Fibria, exigimos a ampliação dos programas de educação ambiental envolvendo as crianças do ensino fundamental, temos perspectivas concretas de ampliar a qualificação e formação profissional dos mais jovens, com investimentos e parcerias como a ampliação do Senai de Jacareí e a vinda da Escola Técnica Federal.

Em todos os níveis, a educação se faz presente e a partir de parcerias com entidades as mais diversas e o Governo Federal. É a base para aliarmos o desenvolvimento econômico ao cuidado com a nossa própria casa. Nossa moderna Lei de Incentivos Fiscais, que certamente atrairá empreendimentos de porte para Jacareí, de nada valeria se não fosse baseada nesses fundamentos básicos.

Jacareí tem se mostrado na vanguarda no tratamento de resíduos sólidos. Tem, em mãos, uma legislação atraente para novos investimentos. Tem, principalmente, investido mais do que nunca em educação, em todos os níveis. São fatores fundamentais que nos permitem falar em “economia” e “ecologia” em sintonia, proporcionando um modelo de desenvolvimento sustentável – a partir da nossa própria “casa”.

[Artigo publicado no jornal O Vale, 8/7/2010]

Construção do conhecimento

“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.” A citação, atribuída ao poeta gaúcho Mário Quintana, é de uma simplicidade que contrasta com a profundidade e riqueza que abarca. Construir uma cidade, uma sociedade mais justa e mais humana depende, em primeiro lugar, de garantir às pessoas o acesso ao conhecimento – quanto mais bem informados, quanto maior for o repertório intelectual, maior será a capacidade de julgamento e de ação de cada um de nós. Isso de traduz em uma palavra: cidadania.

Cabe ao poder público ordenar todos os seus esforços nesse sentido, garantindo oportunidades para todos. E cabe a cada um exercer esse direito, e se apropriar dos equipamentos públicos e das tecnologias disponíveis. O simples acesso à informação e às oportunidades, porém, depende ainda de ferramentas e de técnicas para poder se transformar em conhecimento e, assim, no poder de transformação das pessoas – e da sociedade.

Quando falamos em acesso à tecnologia, logo vêm à mente o acesso aos computadores e à internet. Jacareí vem promovendo um esforço contínuo para equipar as escolas da rede municipal com salas de informática – somente este mês, cinco escolas estão recebendo os equipamentos, integrando o programa Proinfo, do Governo Federal, ou ainda em parceria com o Instituto Embraer. Nossa intenção é estender esses programas a toda a rede de ensino, bem como ampliar o programa Jacareí Digital, que permite o acesso wireless gratuito à internet por qualquer cidadão.

Esses equipamentos somam-se aos telecentros que Jacareí já disponibiliza à população. As novas gerações têm o privilégio de terem nascido e viverem num mundo inimaginável há poucos anos, e esse acesso às novas tecnologias ainda vai produzir transformações profundas nas próprias relações humanas. É mais do que fundamental, portanto, reafirmar a necessidade de garantir a participação de todos nesse processo de transformação (vale lembrar que está em discussão no Congresso a lei que regulamenta as lan houses: muito mais, e muito além do que modernas casas de jogos, precisam ser vistas dentro desse processo. “Lan houses são os campinhos de várzea da cultura digital”, como afirmou Cláudio Prado, presidente do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital).

Capacitar todos a essas novas tecnologias não exclui, de modo algum, o acesso a outras tecnologias. Refiro-me, novamente, aos livros – que são, na verdade, uma tecnologia tão ou mais revolucionária do que as que conhecemos hoje: eles se tornaram populares e acessíveis, tal como são cada vez mais populares e acessíveis o computador, os celulares, a internet…

Nesta sexta-feira, Jacareí ganha mais um moderno e amplo espaço de lazer e cultura, a nova Biblioteca Municipal Macedo Soares, ao lado do Parque dos Eucaliptos. Instalada em uma área de mais de 900 metros quadrados, foi pensada e construída considerando-se a garantia da acessibilidade de pessoas com deficiência. As tecnologias se reencontram na Biblioteca: ao lado do acervo de mais de 52 mil livros, além de cerca de 600 volumes em Braille, a Biblioteca conta com sala de informática com acesso à internet, salão de exposições e salas para oficinas de arte e de encadernação e restauro.

Esperamos que os atuais 5.000 sócios se multipliquem e se apropriem desse novo espaço. Incentivar a leitura é incentivar todos a darem os primeiros passos na descoberta do mundo do conhecimento. E formar cidadãos conscientes e capazes de mudarem o mundo – para melhor.


Este artigo foi publicado no jornal OVale, 29/4/2010

Fronteiras

Já há algum tempo um tema vem me perseguindo, e quanto mais tento entendê-lo mais dúvidas e questionamentos surgem. Em uma palavra, é fácil: “fronteiras”. Mas a diversidade de significados que ela abarca é algo que intriga e instiga – tenho certeza de que muita gente, com muito mais propriedade do que eu, já tentou destrinchar o assunto, mas quero apenas registrar algumas reflexões.

Em princípio, encaro o tema como contraditório: ao mesmo tempo em que vivemos cercados, literalmente, por fronteiras físicas, culturais, sociais, econômicas, é nossa obrigação, até mesmo um imperativo, lutarmos para derrubar essas fronteiras e aproximar as diferenças (a maior riqueza e beleza da humanidade não está, exatamente, na diversidade?).

Esse imperativo, porém, se impõe com maior força na atual situação em que me encontro: como prefeito, como agente público, preciso olhar a cidade como algo orgânico que, por mais que as circunstâncias criem “fronteiras” internas, é formada por um conjunto de atores que necessariamente precisam se interrelacionar. Não podemos, por exemplo, incentivar a concretização das fronteiras invisíveis dos nossos preconceitos na forma de condomínios fechados, murados, tal como ilhas estéreis que impõem fronteiras físicas e alimentam a segregação – dependendo do lado que se esteja, a fronteira é a que demarca o exílio, a exclusão, dentro da própria comunidade.

A contradição maior é constatada quando notamos que algumas fronteiras são absolutamente necessárias para a manutenção de uma ordem mínima de civilidade, mas o instinto nos impele à transgressão e ruptura dessas fronteiras, seja mesmo pela articulação entre distanciamentos e semelhanças, diferenças e conexões, tanto físicas (geográficas, espaciais) quanto subjetivas (culturais, sociológicas etc.).

É interessante notar como “cidades de fronteira”, ao subverter e transgredir a própria fronteira, permite o intercâmbio com “o outro” e alimenta a troca de experiências, vivências, costumes, enriquecendo ambos os lados – são espaços por excelência de troca e de encontro. Ao permitir, no entanto, a proliferação de condomínios de ricos e pobres, a partir da construção de fronteiras físicas que distanciam, somos no mínimo coniventes com um processo que nos desumaniza, e desumaniza e empobrece a sociedade como um todo. O individualismo se materializa de maneira forte e triste, e as fronteiras revelam não apenas a separação por muros, mas por preconceitos, falta de cultura de paz, demonstração de poder, medo do outro, medo da violência, medos e mais medos, muitos sem explicação.

Da mesma maneira, e partindo do mesmo princípio, os próprios municípios precisam se perceber como órgãos de um corpo maior e, sem desprezar as diferenças e contrastes (pelo contrário, valorizá-los), pensar conjuntamente o planejamento de inevitáveis conurbações. Muito provavelmente, as respostas existem. Talvez, mesmo, o que precisemos seja mudar as perguntas…

P.S.: sei da relevância e da extensão do tema. Este texto é apenas um registro de anotações e pensamentos esparsos, que pretendo desenvolver melhor daqui para a frente.

Cultura além-fronteiras

Nós, aqui de Jacareí, temos o privilégio de contar com o Museu de Antropologia do Vale do Paraíba, reconhecido por seu valor histórico e cultural. E a nossa Fundação Cultural tem se esmerado em ampliar e variar as opções e exposições, valorizando ainda mais esse espaço único.

Agora, o MAV passa a abrigar mais uma exposição de porte, contando com artistas nacionais de obras também de artistas de Portugal, França, Itália e Finlândia. Essa exposição é mais do que ilustrativa em um aspecto: a cultura e as artes são, por excelência, formas de integração entre os povos. Ao se utilizar de linguagens visuais e, muitas vezes, não-convencionais, as artes extrapolam fronteiras e se fazem entender por quaisquer povos.
Abrir as portas do Museu ao público de Jacareí e de outras cidades é, para nós, motivo de orgulho – é fazer de um espaço público um espaço realmente democrático, aberto à divulgação da cultura nos mais diversos gêneros, etnias e tendências estéticas.

Esta é, assim, uma maneira de o MAV proporcionar aos visitantes uma viagem além-fronteiras, mas ao mesmo tempo permitir um diálogo entre a nossa própria história e nossos artistas locais com expressões e visões de outras partes do mundo, o que nos enriquece a todos. Incentivar essas manifestações é valorizar a multiculturalidade, e este é um dever que assumimos publicamente.


Serviço – Exposição de arte contemporânea MundoMav de 6 de julho a 6 de agosto.
Local: Museu de Antropologia do Vale do Paraíba - Rua XV de Novembro, 143, centro. Tel. (12) 3953-3574.
Aberto das 9h às 16h45, de terça a domingo.
Visitas noturnas (escolas, empresas, instituições) podem ser agendadas.

Semana do Meio Ambiente

Jacareí passou muitos anos sem nenhuma política voltada ao meio ambiente e ao planejamento. Nos últimos anos, porém, a questão ambiental passou a fazer parte das prioridades da Administração Municipal. A realização da Terceira Semana do Meio Ambiente é mais uma maneira de incentivar a participação de todos nas discussões para avaliarmos o que já foi feito e o que ainda precisamos fazer.

Nós sabemos que as soluções acontecem a longo prazo, mas temos a certeza de que já conseguimos conquistas importantes. O aumento significativo dos índices de tratamento de esgoto na cidade – que vai se ampliar significativamente com as obras de despoluição do Córrego do Turi –, a transformação do antigo “lixão” em um aterro sanitário controlado, o incentivo à coleta seletiva e à formação de cooperativa de catadores, a fiscalização na área de mineração, os investimentos na revitalização de áreas verdes e o programa de educação ambiental são apenas alguns exemplos do que Jacareí já vem fazendo em relação à questão ambiental.

Este conjunto de ações, no entanto, precisa ser cada vez mais ampliado e estimulado, envolvendo toda a população. Com a Semana do Meio Ambiente, temos a oportunidade de discutir e ampliar essas ações, de forma que consigamos uma sintonia entre o desenvolvimento econômico-sustentável e a preservação e valorização das questões ambientais.

Diversidade cultural

Durante o período em que esteve à frente do Ministério da Cultura, o cantor e compositor Gilberto Gil tinha um lema fundamental, baseado na premissa de que “as diferenças culturais são positivas, mas as desigualdades sociais não são e nem serão jamais”.

Tenho para mim que este pode – e deve – ser um princípio a ser seguido em Jacareí. Para isso, realizamos na semana passada o Fórum Municipal de Cultura. Falamos muito no desenvolvimento econômico de Jacareí, e nas ações que promovemos para combater toda e qualquer forma de exclusão. Nesse processo, o respeito e o incentivo à diversidade cultural é, ao mesmo tempo, um patrimônio riquíssimo a ser preservado e um meio de garantirmos a nossa própria sobrevivência, dando suporte às nossas tradições e raízes.

Mais ainda: é uma forma de resistência aos monopólios da produção cultural por parte de grandes corporações. Dar garantias ao fomento e à criação e produção cultural, em todas as suas manifestações, é um compromisso que todos precisamos assumir. Do popular ao erudito, do teatro à música e à literatura, entre outras manifestações, é na diversidade cultural que exercemos também a democracia.

Ao convocarmos a sociedade para, juntos, discutirmos a construção de uma política cultural para Jacareí e a adoção de ações culturais no processo de construção da cidadania, damos nossa contribuição para todo esse processo. É, porém, apenas mais um passo: essa discussão precisa ser permanente, e necessariamente envolver o maior número de agentes sociais possível.

Outro mundo é possível (?)

Belém, a capital do Pará, se transforma a partir desta terça-feira na sede da sexta edição do Fórum Social Mundial. São esperados mais de 2.000 indígenas, do Brasil e de outros países – a questão dos índios, ribeirinhos e quilombolas deverá ter destaque este ano, privilegiando questões como a demarcação de terras e projetos econômicos que colocam em risco essas comunidades tradicionais.

Na quinta-feira, o presidente Lula recebe, no Fórum, os colegas Evo Morales (Bolívia), Fernando Lugo (Paraguai), Rafael Correa (Equador) e Hugo Chávez (Venezuela). Naturalmente, espera-se que o foco principal do Fórum – os povos indígenas – seja ofuscado por discussões sobre a crise econômica mundial.

É sintomático que os presidentes latino-americanos que se reunirão são representantes de um novo modelo político-administrativo, alternativo ao neoliberalismo, cada um à sua maneira. A forte atuação na área social tem referendado a esses presidentes, e em particular o presidente Lula, a chancela de novas lideranças emergentes no cenário político internacional.

Refletir sobre a questão dos excluídos – relembremos os índios, ribeirinhos e quilombolas – é a eterna busca por justiça social. Refletir sobre os efeitos de um modelo econômico que privilegia o lucro fácil e exclui, ao invés de incluir socialmente, é tarefa cotidiana que devemos assumir. Do Fórum não se espera soluções prontas, imediatas. Mas, desde a primeira edição, em 2001, em Porto Alegre, o Fórum já se consolidou como um espaço privilegiado para a discussão de uma agenda comum que clame por justiça.

Tenho fé, e preciso acreditar que, sim, “um outro mundo é possível”, seguindo o lema do Fórum. Essa construção coletiva começa, no entanto, aqui “em casa” — precisamos sempre ter em mente o “pensar globalmente, agir localmente”, o que pode e precisa ser feito por cada um de nós, a partir de pequenas ações.

Valorizar as tradições

Jacareí sempre foi reconhecida como uma cidade que tem manifestações culturais bastante diversificadas. Particularmente, esta semana, tivemos mais uma demonstração de preservação das nossas tradições: um grupo realiza, há anos, a Folia de Reis no bairro Santa Maria, sempre no dia 6 de janeiro. Adultos, jovens e crianças, em meio a músicas e toadas, passam de casa em casa, resgatando a visita dos três Reis Magos — Melchior, Baltazar e Gaspar — ao recém-nascido Menino Jesus.

Tradição originária de Portugal, a Folia de Reis mantém vivo o mais puro espírito da fé popular. E, diferentemente do que muita gente pensa, “fé popular” está longe de ser “pobre”: muito pelo contrário, são manifestações como esta que possuem uma riqueza enorme de simbologias, de significados, que vão muito além do caráter religioso.

Sabemos que há diversos grupos como o do bairro Santa Maria preservando tradições, com manifestações espontâneas, que envolvem várias comunidades. São artistas natos, que fazem arte fora do circuito convencional, sem nenhum objetivo comercial. Reconhecer e valorizar esses artistas e essas comunidades é, na verdade, valorizar a nossa própria história, nossas tradições e costumes.

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