No meio da revolução

Sempre que a gente faz aniversário é um momento propício para reflexões: mais um ano se passou, o que fiz, o que estou fazendo, será que estou no rumo certo? Podem parecer reflexões até juvenis, mas ainda bem que a gente mantém um certo espírito juvenil e se faz essas perguntas, de vez em quando. E, quando a data é “redonda”, parece que tem um simbolismo maior. Pois é: completei 40 anos nesta segunda-feira, dia 30, e me vi diante dessas perguntas básicas.

Não quero entrar na questão “existencial” ou qualquer coisa do tipo – nem teria capacidade para tanto. Só queria registrar algumas observações do que tenho vivido e aprendido, sem nenhuma pretensão de querer esgotar aqui o que isso queira dizer. Quero falar, principalmente, do advento de uma era que, para mim, tem se mostrado fantástica. Para muitos isso já é fato há anos, mas de alguns meses para cá tenho me envolvido mais com algumas descobertas como o Twitter e o Facebook. Sei que cheguei bem mais tarde do que muita garotada, mas quero só registrar a minha impressão pessoal dessas redes sociais, e particularmente nesse momento pré-eleições.

Essas ferramentas concretizam um ideal de liberdade de expressão inimaginável para meus pais. A garotada de agora já nasceu com tudo isso, e é natural ter canais próprios de expressão, sem limites. Para a minha geração, e as mais antigas, é uma revolução sem tamanho. Pela primeira vez no Brasil, a importância das redes sociais e de outras ferramentas possibilitadas pela internet — com o reconhecimento do presidente Lula, que convocou a militância “virtual” (que de virtual não tem nada) para assumir essa responsabilidade – é uma realidade a que ainda estamos tentando nos adaptar.

Vivemos, hoje, um momento histórico, que ficará marcado, no futuro, como a Revolução Industrial ou, sem exagero, o Renascentismo e as Grandes Navegações. Em apenas algumas dezenas de anos, o progresso que a internet propiciou em termos de comunicação (e que deixou os meios tradicionais literalmente perdidos) foi infinitamente maior do que o que assistimos em séculos!

É compreensível que tudo isso traga conflitos, seja entre gerações, seja principalmente entre a chamada “elite”, que historicamente é a detentora do conhecimento. Quando vemos ferramentas que permitem e incentivam o compartilhamento de informações e de conhecimento, sem depender do aval dos “poderosos”, vemos que estamos realmente diante da mais fantástica revolução: o acesso ao conhecimento está aberto a todos, sem distinção. Querem exemplo maior de democracia?

Mas, ao mesmo tempo, o mundo parece correr mais rápido. Ainda que tenhamos a consciência de que somos cada vez mais frágeis, essa conectividade parece nos oferecer a pretensão da “vida eterna”, um falso Santo Graal. É curioso: o imediatismo das mensagens se junta à pretensa eternidade dos posts nos blogs e afins, e obscurecem a nossa consciência de finitude: agimos muitas vezes como se fôssemos eternos, incentivando apegos materiais e a ideia de domínio do mundo.

Quero crer que não seja assim. Temos, pela primeira vez, a oportunidade de cada um escrever e fazer a sua própria história, e compartilhar com os outros livremente, sem barreiras. Nossa limitação é somente a nossa consciência.

Estrada Real: um rico passeio

Tiradentes, Mariana e Ouro Preto são apenas algumas cidades históricas do Ciclo do Ouro, e tive a grata oportunidade de visitá-las há alguns dias junto com a Suzi, minha esposa. Ainda que tenha sido uma viagem mais curta do que desejávamos e que o roteiro merecia, não posso deixar de registrar e compartilhar um pouco do que pudemos ver: história, cultura, arquitetura, natureza, entre outros aspectos, compõem harmonicamente um roteiro riquíssimo, que vale a pena visitar. O termo “riquíssimo” não é à toa: na segunda metade do século 17, antigas e toscas picadas abertas por índios e bandeirantes começaram a se transformar e ganharam um movimento absurdo para a época, tornando-se rota obrigatória para o escoamento de uma riqueza extraordinária descoberta nas Minas Gerais. Nascia a chamada Estrada Real, ou Caminho do Ouro.

Se, naquela época, os diamantes e ouro explorados pelos portugueses fizeram a fortuna da Corte Real, hoje tenho a certeza de que o que ficou é de uma riqueza enorme, de um valor inestimável. Em primeiro lugar, confesso que fiquei impressionado com o que encontrei ao longo do caminho: a bela paisagem, exuberante, mostra como Deus foi pródigo em belezas naturais na região. Ainda que as agressões a essas belezas tenham se multiplicado ao longo dos anos – séculos? –, a infinidade de atrações mostra um potencial enorme que vem sendo explorado pelo chamado “turismo de aventura” – este, graças a Deus, feito de maneira razoavelmente sustentável.

Conta-se que as primeiras picadas que deram origem ao Caminho do Ouro começaram a ser abertas muito antes da chegada dos primeiros portugueses. Os índios goianás de Taba-etê (nossa vizinha Taubaté) acreditavam que as areias de Paraty tinham efeito medicinal e, para tratar da saúde, abriram as primeiras trilhas rumo ao litoral sul do Rio de Janeiro. A elas se uniram as rotas traçadas pelos bandeirantes que, partindo de São Paulo, corriam para o interior do País em busca das riquezas. Os contornos de estrada vieram depois de 1694, com a descoberta do ouro na região de Vila Rica, o berço da Inconfidência Mineira que passou a se chamar Ouro Preto.

No trajeto, chama a atenção a quantidade de pequenas cidades, uma após a outra, sempre reforçando uma característica marcante do povo mineiro: a hospitalidade e aquele jeitinho bastante especial. Possivelmente, cada cidadezinha é herança dos pequenos pousos que as tropas de mulas faziam no trajeto de Ouro Preto ao porto de Paraty – a Estrada Real tem mais de 1.000 quilômetros, passando por 177 cidades de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro.

(Nosso passeio foi mais modesto, e fizemos cerca de 600 quilômetros. Ainda assim, outra surpresa: em todo o trajeto, apenas um pedágio. É sintomático que tenha sido na via Dutra, em São Paulo, onde o governo do PSDB e suas concessões conseguiram multiplicar o número de praças de pedágio de maneira escandalosa – desde 1998, quando começaram as concessões, foram inauguradas 112 praças de pedágio (média de uma a cada 40 dias), enquanto em todo o país foram 113…)

Mas, voltemos à Estrada Real. Saindo da Dutra, na altura de Cachoeira Paulista, seguimos em direção a Passa Quatro e participamos do casamento do meu primo Jairo — belíssima festa, com a cara do querido povo mineiro. No dia seguinte fomos a Tiradentes e, na sequência, a Ouro Preto. Por este caminho é preciso passar por Ouro Branco, e a impressão que tivemos é a de que todos que por lá passam perguntam sobre o caminho de Ouro Preto, deixando Ouro Branco apenas como passagem e perdendo muito do que a cidade oferece do ponto de vista turístico – mais um exemplo das “pequenas riquezas” espalhadas pela Estrada Real e que merecem uma atenção e divulgação maiores. Ao longo do caminho, além das belas paisagens, as estradas estão ótimas e ainda com obras em vários trechos. Mas seguimos para Ouro Preto, chegando ao hotel exatamente às 14h24 – fomos correndo assistir ao jogo do Brasil e Chile.

No dia seguinte, com um guia turístico, conhecemos toda a cidade de Ouro Preto e também a cidade de Mariana. É fundamental ter um guia para conseguir conhecer estas cidades num espaço pequeno de tempo, especialmente as principais igrejas, as obras de Aleijadinho, de seu pai e do Mestre Ataíde. A cidade de Mariana também se destaca por sua história e por manter uma praça com Igreja, Pelourinho, a Câmara e Casa de Cadeia. Esse espaço marca o período da escravidão de forma clara e é uma maneira de não esquecermos de como tratamos nossos irmãos negros.

A cidade de Ouro Preto é para deixar qualquer um impressionado: a arquitetura barroca das igrejas, as obras do Aleijadinho, as belas pinturas feitas nos tetos da Igreja, a maioria do Mestre Ataíde, as casas e ruas que marcam a história desta importante cidade brasileira devem ser motivo de orgulho de todos nós. A igreja do Pilar é a principal obra da cidade, pela quantidade de ouro em seu interior e por um dos acervos mais representativos do período barroco. Em segundo, destaco a igreja de São Francisco de Assis, pela pintura no teto do Mestre Ataíde.

É muito difícil descrever as emoções que este passeio proporciona, mas posso afirmar que vale muito ter contato com a história dessas cidades nos mais variados aspectos: desde o que se refere à exploração por nós sofrida pelos portugueses à riqueza das obras barrocas, tudo marcado pela força da religião católica naquele período, suas motivações e ligações com a Corte Portuguesa. Tudo, somado, creio que não haja outra região que concentre tantos exemplares em matéria de obras, construções e riqueza arquitetônica, principalmente se considerarmos quase tudo foi construído durante o século XVIII, sem dispor de modernas técnicas construtivas. A Estrada Real concentra, sem dúvida, um potencial gigantesco ainda a ser explorado – é impossível fazer um breve relato como esse sem repetir o termo “riqueza”, que remete ao ouro do passado, antes concentrado em poucas mãos, mas ao mesmo tempo ilustra o quanto existe de belo e diverso a ser explorado e compartilhado por todos nós, nos mais variados segmentos: turístico, histórico, cultural, religioso, ecológico, gastronômico, rural, de negócios e de aventura.

Cuidando da própria casa

Se o século XX será lembrado como um marco na industrialização e na economia de mercado que, se bens trouxeram, foram fomentadas por uma devastação extrema dos recursos naturais e em uma nunca vista concentração de poder e capital, temos um desafio urgente para este século XXI: tentar, pelo menos, minimizar esses efeitos danosos já herdados e propiciar uma distribuição mais justa dos bens, a partir de exploração e manejos mais adequados dos recursos naturais.

A ação predatória, e até promíscua, do meio ambiente acendeu alarmes apocalípticos em todos os setores da sociedade. Em que pesem os danos irreversíveis, ainda há tempo de nos movermos e agirmos para recuperar o que é possível e preservar riquezas naturais imprescindíveis à nossa própria sobrevivência. Aliar compromissos éticos a um senso estético – no mais amplo sentido – torna-se urgente: corremos o risco de condenar as futuras gerações e sacrificar patrimônios universais, como a biodiversidade, se não nos conscientizarmos e agirmos aqui, e agora.

Uma simples consulta ao dicionário nos mostra que o termo “economia” tem, em primeiro sentido, o “gerenciamento de uma casa, especialmente das despesas domésticas; ciência que estuda os fenômenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais necessários ao bem-estar; aproveitamento racional e eficiente de recursos materiais”, completando, em sentido poético, sobre a “disposição, ordem, arranjo, de um discurso, de um poema”.

Sintomático que o termo “ecologia” só venha a surgir no início do século XX. A partir da mesma raiz grega, “oîkos” (“casa”), amplia o conceito original do ambiente “doméstico” para “as relações das comunidades humanas com o meio ambiente”, e as “relações recíprocas entre o homem e seu meio moral, social, econômico”.

Economia e ecologia, portanto, não são, em nenhum momento, excludentes. O desenvolvimento e o progresso, quase sempre vistos como um tanto predatórios, têm, fundamentalmente, os mesmos princípios. E se temos no dia 5 de junho uma data simbólica, do Dia Mundial do Meio Ambiente, temos a oportunidade de refletir sobre o que, efetivamente, estamos fazendo para conjugar esses princípios.

Jacareí preparou uma extensa programação com este objetivo. Realizamos a Semana do Meio Ambiente de Jacareí com uma série de eventos que vão desde dinâmicas com crianças a roteiros turísticos – incluindo o Viveiro Municipal e as obras do projeto Turi Limpo (que vai elevar o índice de tratamento de esgotos da cidade de 20% para 70%) – passando por uma integração com áreas verdes como o Parque da Cidade, com oficinas de yoga, tai chi chuan e origami, além de palestras e discussões técnicas versando sobre políticas de resíduos sólidos e saneamento, entre outras.

No Parque da Cidade, um grupo de plantão poderá tirar dúvidas sobre a gestão e reciclagem do plástico, resíduos eletrônicos e óleo, em parceria com o Ciesp. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente também estará expondo trabalhos de educação ambiental e plantas medicinais, realizados com as crianças da rede municipal de ensino.

A questão educacional, aqui, ganha valor preponderante: ao mesmo tempo em que, a partir de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com empresas como a Fibria, exigimos a ampliação dos programas de educação ambiental envolvendo as crianças do ensino fundamental, temos perspectivas concretas de ampliar a qualificação e formação profissional dos mais jovens, com investimentos e parcerias como a ampliação do Senai de Jacareí e a vinda da Escola Técnica Federal.

Em todos os níveis, a educação se faz presente e a partir de parcerias com entidades as mais diversas e o Governo Federal. É a base para aliarmos o desenvolvimento econômico ao cuidado com a nossa própria casa. Nossa moderna Lei de Incentivos Fiscais, que certamente atrairá empreendimentos de porte para Jacareí, de nada valeria se não fosse baseada nesses fundamentos básicos.

Jacareí tem se mostrado na vanguarda no tratamento de resíduos sólidos. Tem, em mãos, uma legislação atraente para novos investimentos. Tem, principalmente, investido mais do que nunca em educação, em todos os níveis. São fatores fundamentais que nos permitem falar em “economia” e “ecologia” em sintonia, proporcionando um modelo de desenvolvimento sustentável – a partir da nossa própria “casa”.

[Artigo publicado no jornal O Vale, 8/7/2010]

Construção do conhecimento

“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.” A citação, atribuída ao poeta gaúcho Mário Quintana, é de uma simplicidade que contrasta com a profundidade e riqueza que abarca. Construir uma cidade, uma sociedade mais justa e mais humana depende, em primeiro lugar, de garantir às pessoas o acesso ao conhecimento – quanto mais bem informados, quanto maior for o repertório intelectual, maior será a capacidade de julgamento e de ação de cada um de nós. Isso de traduz em uma palavra: cidadania.

Cabe ao poder público ordenar todos os seus esforços nesse sentido, garantindo oportunidades para todos. E cabe a cada um exercer esse direito, e se apropriar dos equipamentos públicos e das tecnologias disponíveis. O simples acesso à informação e às oportunidades, porém, depende ainda de ferramentas e de técnicas para poder se transformar em conhecimento e, assim, no poder de transformação das pessoas – e da sociedade.

Quando falamos em acesso à tecnologia, logo vêm à mente o acesso aos computadores e à internet. Jacareí vem promovendo um esforço contínuo para equipar as escolas da rede municipal com salas de informática – somente este mês, cinco escolas estão recebendo os equipamentos, integrando o programa Proinfo, do Governo Federal, ou ainda em parceria com o Instituto Embraer. Nossa intenção é estender esses programas a toda a rede de ensino, bem como ampliar o programa Jacareí Digital, que permite o acesso wireless gratuito à internet por qualquer cidadão.

Esses equipamentos somam-se aos telecentros que Jacareí já disponibiliza à população. As novas gerações têm o privilégio de terem nascido e viverem num mundo inimaginável há poucos anos, e esse acesso às novas tecnologias ainda vai produzir transformações profundas nas próprias relações humanas. É mais do que fundamental, portanto, reafirmar a necessidade de garantir a participação de todos nesse processo de transformação (vale lembrar que está em discussão no Congresso a lei que regulamenta as lan houses: muito mais, e muito além do que modernas casas de jogos, precisam ser vistas dentro desse processo. “Lan houses são os campinhos de várzea da cultura digital”, como afirmou Cláudio Prado, presidente do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital).

Capacitar todos a essas novas tecnologias não exclui, de modo algum, o acesso a outras tecnologias. Refiro-me, novamente, aos livros – que são, na verdade, uma tecnologia tão ou mais revolucionária do que as que conhecemos hoje: eles se tornaram populares e acessíveis, tal como são cada vez mais populares e acessíveis o computador, os celulares, a internet…

Nesta sexta-feira, Jacareí ganha mais um moderno e amplo espaço de lazer e cultura, a nova Biblioteca Municipal Macedo Soares, ao lado do Parque dos Eucaliptos. Instalada em uma área de mais de 900 metros quadrados, foi pensada e construída considerando-se a garantia da acessibilidade de pessoas com deficiência. As tecnologias se reencontram na Biblioteca: ao lado do acervo de mais de 52 mil livros, além de cerca de 600 volumes em Braille, a Biblioteca conta com sala de informática com acesso à internet, salão de exposições e salas para oficinas de arte e de encadernação e restauro.

Esperamos que os atuais 5.000 sócios se multipliquem e se apropriem desse novo espaço. Incentivar a leitura é incentivar todos a darem os primeiros passos na descoberta do mundo do conhecimento. E formar cidadãos conscientes e capazes de mudarem o mundo – para melhor.


Este artigo foi publicado no jornal OVale, 29/4/2010

Jacareí e a política nacional de resíduos sólidos

Há pouco mais de uma semana, o Congresso Nacional foi palco de uma significativa e importante conquista para o Brasil: com a aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), o país finalmente se sintoniza com uma demanda crescente, em âmbito mundial, e que passa a ser tratada com a atenção que merece – e necessita. Ainda que as discussões, rejeições, reavaliações e modificações tenham se arrastado por longos 19 anos (e que ainda dependam da aprovação final por parte do Senado), a PNRS merece aplausos, já que chegou ao formato final contemplando a mais moderna abordagem relativa aos resíduos sólidos.

É válido contextualizar algumas circunstâncias que permeiam essa conquista: além da própria terminologia, que diferencia “lixo” (basicamente, lixo orgânico, que tem como destino o aterro sanitário) de “resíduos” (o que resta do processo de produção e consumo, e que pode ser reaproveitado), vivemos hoje em uma sociedade eminentemente urbana, cercada por apelos consumistas e com produtos e serviços que alimentados pela descartabilidade. O conjunto desses fatores, entre outros, propiciou um incremento nunca antes visto na geração de resíduos sólidos, e que só cresce exponencialmente.

No bojo na PNRS, uma série de conceitos antes restritos ao meio acadêmico ou ambientalista ganha popularidade: responsabilidade compartilhada, gestão integrada, acordos setoriais, ciclo de vida do produto, disposição final ambientalmente adequada, não-geração, redução, reutilização, reciclagem… Um conceito, porém, merece atenção particular: a logística reversa (que, destaque-se, foi incluída na PNRS principalmente pela pressão popular a partir de ONGs e grupos coletivos anônimos ligados às questões ambientais).

Bem além da reciclagem, por logística reversa entende-se o processo inverso de produção de resíduos, e em particular o lixo eletrônico, ou e-waste (aparelhos eletroeletrônicos, pilhas, lâmpadas fluorescentes etc.). São produtos potencialmente alvos da chamada “obsolescência programada”: têm vida útil curtíssima, e são repostos e consumidos na mesma velocidade dos avanços tecnológicos. (Este item, aliás, motivou um recente “puxão de orelhas” da ONU no Brasil que, seguido do México e da China, é o maior produtor per capita de resíduos eletrônicos entre os países emergentes, além de o país ser carente de dados e estudos sobre a situação da produção, reaproveitamento e reciclagem de eletrônicos, uma lacuna que a PNRS pode vir a preencher.)

Em Jacareí, antecipamo-nos à PNRS e começamos 2010 com a entrada em operação da concessão da limpeza pública e resíduos sólidos. Fruto de uma parceria público-privada, o modelo da concessão adotado em Jacareí, inédito no país, está em perfeita sintonia com a PNRS, seja em termos operacionais, seja conceituais. No que se refere à logística reversa, a concessão em Jacareí determina a construção de um novo aterro sanitário, que contará com um novo conceito: será um centro de integrado de tratamento de resíduos sólidos, contemplando os variados tipos de produtos.

Na mesma linha, a coleta seletiva será ampliada para toda a cidade, que ganhará anda novos LEVs (Locais de Entrega Voluntária) – e a Cooperativa Jacareí Recicla será integrada ao processo, ficando responsável pela triagem e reciclagem de resíduos. O próprio “horizonte” previsto pela PNRS vem comprovar o vanguardismo do modelo de Jacareí: a concessão aqui é válida por 20 anos, e o novo aterro terá vida útil de 25 anos, já considerando o aumento gradativo da população.

Essas medidas, aliadas a várias outras, colocam Jacareí em situação privilegiada junto à PNRS: estados e municípios ficam obrigados a elaborar planos de gestão dos resíduos, sob pena de se verem impedidos de contrair novos empréstimos públicos ou ter acesso a recursos da União. São apenas alguns pontos de concordância entre a PNRS e o que já vem sendo implantado em Jacareí, mas coroam um processo iniciado em 2002, quando foi elaborado o Plano Municipal de Limpeza Urbana.

Aliada a outras políticas nacionais, como de saneamento, de mudanças climáticas, de meio ambiente e de educação ambiental, a PNRS é um alento que promete desencadear transformações substantivas nos modos de produção e de consumo, além da própria relação entre o ser humano e o meio ambiente. São meios sustentáveis para a construção de uma Jacareí e de uma sociedade mais sustentáveis, baseados em sólidas diretrizes ambientais e socioeconômicas – resíduos, aqui, são sinônimo de alternativa de geração de renda, de empregos, de negócios e de sustentabilidade.

Este texto, em versão condensada, foi publicado no valeparaibano de 28/3


Publicado também na Gazeta de Ribeirão de 10/4

Em Jacareí, lixo é coisa séria

Jacareí deu início a uma nova e importante etapa no que se refere a um problema crônico para as administrações municipais: o lixo. Um problema, no entanto, que Jacareí pode se credenciar a ser referência, com uma solução que, sem dúvida, entra para a história da cidade. O princípio fundamental: valorizar e preservar o meio ambiente, garantir benefícios diretos na área da saúde e integrar aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais de forma sustentável. É um sistema inédito: em vez de a prefeitura contratar os serviços, com a concessão a empresa fica responsável pelos investimentos e garante os serviços.

O contrato de concessão, válido por 20 anos, segue as mais modernas sistemáticas de gestão, garantindo investimentos de mais de R$ 38 milhões por parte da concessionária. Somente neste ano serão quase R$ 13 milhões em investimentos em Jacareí, incluindo obras e equipamentos que serão revertidos para a prefeitura após a concessão. É importante ressaltar que este novo modelo seguirá um processo permanente de avaliação do desempenho da concessionária – que terá que atender a índices de desempenho previamente estipulados.

Outra exigência é voltada às melhorias do atual aterro sanitário de Jacareí, bem como à construção de um novo aterro sanitário, que terá vida útil de 25 anos, já considerando o aumento gradativo da população. Nosso aterro tem uma localização estratégica, próximo à região central, que facilita a operacionalização dos serviços sem elevar os custos.

Este novo aterro nasce com um novo conceito: centro integrado de tratamento de resíduos sólidos, que prevê investimentos em tratamento por compostagem do lixo orgânico proveniente das feiras-livres e poda de árvores, instalação de unidades de tratamento de resíduos sépticos (saúde), de triagem de recicláveis, de beneficiamento de resíduos da construção civil e de trituração de pneus. Haverá ainda a coleta e tratamento de lixo eletrônico, como pilhas e baterias.

Um dos benefícios da nova concessão é a implementação gradativa da coleta seletiva nos bairros, com dias para recolher plásticos, papéis, vidros, separados pelos moradores em casa. Também serão implantados mais LEVs (Locais de Entrega Voluntária) pela cidade. Para esta ampliação serão incorporados novos caminhões destinados à coleta seletiva, e os catadores da Cooperativa Jacareí Recicla ficarão na triagem sem precisar fazer o trabalho na rua.

Haverá ainda o monitoramento da frota que faz a coleta de lixo. Os caminhões da coleta terão equipamentos eletrônicos (GPS) instalados permitindo o acompanhamento da operação em tempo real pela Secretaria de Meio Ambiente. Por fim, mas não menos importante, a concessionária é obrigada a investir parte dos recursos em programas e ações voltadas à educação ambiental.

Este importante passo foi simbolizado na assinatura do contrato da prefeitura com a Ambiental Jacareí, no dia 15 de janeiro, quando foi apresentada parte dos novos equipamentos e caminhões. Mas a concessão da limpeza pública concretiza um processo iniciado em 2002, quando foi elaborado o Plano Municipal de Limpeza Urbana. Desde então, Jacareí passou a encarar a questão da limpeza pública como política urbana, demonstrando uma forte atenção à questão ambiental e à sustentabilidade da cidade.

Um processo longo, mas que denota exatamente a seriedade com que o tema merece e foi tratado. Vale destacar o empenho do ex-prefeito Marco Aurélio de Souza nesse processo, bem como a visão aberta, voltada ao futuro, do nosso saudoso amigo Davi Lino, um dos responsáveis por termos chegado, hoje, a este patamar de desenvolvimento sustentável em Jacareí.

2009: conquistas e desafios

Chega o fim do ano, e o início de outro, e é natural que todos façamos uma avaliação das conquistas obtidas, dos desafios enfrentados, de tudo o que “poderia ter sido e que não foi” (parafraseando o Manuel Bandeira). Tudo para avaliarmos a nós mesmos, nos preparando para a chegada de um novo ano. É um momento simbólico, que marca o cumprimento de mais uma etapa – e, com todo o simbolismo que carrega, nem sempre conseguimos enxergar e interpretar objetivamente. Na maioria das vezes, pode ser mais fácil reduzirmos todas as conquistas (e não-conquistas) e números frios, desprezando o real valor de cada acontecimento – daí que a subjetividade é intrínseca a qualquer avaliação desse tipo.

De minha parte, posso afirmar com toda a certeza que 2009 foi um ano marcante. Foi meu primeiro ano à frente da Prefeitura de Jacareí e, mesmo com minha experiência e participação nas administrações anteriores, dessa vez a responsabilidade pelas decisões foi toda minha, com tudo o que isso implica de bom e de ruim – e, graças a Deus, constato agora que, no balanço geral, foram muito mais coisas boas do que ruins.
Administrativamente, o ano de 2009 ficará marcado na história de Jacareí pelo início da maior obra de saneamento já realizada na cidade. A despoluição do córrego do Turi concretiza um processo complexo iniciado na gestão do ex-prefeito Marco Aurélio (e, que fique registrado, contou com a participação importante do nosso saudoso Davi Lino), e vai trazer benefícios significativos não apenas para Jacareí, mas também para os mais de 14 milhões de moradores atingidos por toda a bacia do rio Paraíba.

Para além da obra em si, que poderia ser descrita em números grandiosos, a despoluição do Turi pode ser vista por vários outros aspectos. Entre outros, seja pela participação decisiva do Governo Federal, incluindo Jacareí nos investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e ilustrando a disposição do presidente Lula em garantir aos municípios o poder de gerenciamento de obras importantes e de relevância regional; seja pelas consequências geradas nas mais diversas áreas: obras de saneamento são, de um modo geral, quase “ingratas”, já que geram transtornos e, no final, não são visíveis à população, mas têm influência direta nos índices socioeconômicos e de qualidade de vida, notoriamente na área da saúde.
E a saúde, todos sabemos, é nosso maior desafio – e será sempre. Por mais que façamos investimentos nessa área, as demandas sempre são enormes. Jacareí conseguiu, no entanto, dar passos importantes na saúde em 2009: concluímos a reforma e ampliação da UBS Parque Santo Antônio, instalamos a Farmácia da Cidade e demos início ao processo para a construção da UBS Santa Cruz dos Lázaros, que será uma unidade de referência para toda a região oeste da cidade.

Comemoramos também, em 2009, a entrega de dois equipamentos públicos que ilustram perfeitamente o nosso empenho em humanizar cada vez mais nossa Jacareí, incentivando os moradores a se apropriarem da cidade. Refiro-me à segunda fase do Parque da Cidade e ao EducaMais Espaço Jardim Paraíso: o parque, bem no coração da cidade, faz parte da revitalização do centro, enquanto o EducaMais mudou a realidade de um bairro que não tinha nada, nem sequer asfalto. São dois espaços públicos abertos à toda a população, da mesma maneira que outros locais, como o Espaço Liberdade, o Beira Rio e diversas áreas verdes e praças que foram revitalizadas nos bairros.

Poderia ainda lembrar das obras de saneamento nos bairros 22 de Abril, Igarapés, Imperial, Alvorada e Pedramar, o recapeamento e asfalto em várias ruas da região central e muitas outras intervenções feitas na cidade este ano, bem como o início das obras da nova rodoviária. Tudo, porém, converge para um só objetivo: levar mais qualidade de vida para todos os nossos moradores. As pessoas que vivem aqui na cidade, e que constroem Jacareí a cada dia, têm que ser a nossa motivação, sempre. E é o que pude constatar, e que é mais gratificante para mim meste ano: durante uma das cinco edições do Bairro em Ação, na Vila Formosa, um casal veio até mim e disse que me conhecia desde pequeno, e conhecia meus pais, com um relato de toda a minha história. Mais do que os elogios, este foi um momento de extrema responsabilidade, como prefeito e como pessoa.

2009 foi, ainda, uma verdadeira “prova de fogo”: se não bastasse a crise econômica mundial, que teve reflexos no país e, naturalmente, em Jacareí, o ano foi mais do que pródigo em chuvas, impedindo ou atrapalhando nosso cronograma de obras. A exemplo do Brasil, porém, fechamos o ano com um saldo positivo, comprovando que estamos pisando em solo firme, com uma economia saudável e razoavelmente bem fortalecidos para encarar outras adversidades.

Mas, para isso, espero sinceramente que possamos abrir mais canais de diálogo, principalmente com o governo do Estado. Nesse ponto, ainda que tenhamos feito esforços diários, 2009 deixou a desejar, como ficou bastante explícito no caso das discussões em relação à rodovia Geraldo Scavone, por exemplo. Somente com esse diálogo aberto, envolvendo todos os níveis de governo e os mais variados atores sociais, poderemos continuar crescendo e planejando o futuro de nossa cidade e do país.

Com tudo isso, tenho para mim que, entre os prós e os contras, o balanço geral de 2009 é bastante positivo e, com isso, as perspectivas para 2010 são mais do que promissoras. A continuação das obras do Turi, o término da nova rodoviária, nova etapa da avenida Davi Lino, a construção do piscinão do Pitoresco, bem como as obras de drenagem e pavimentação nas ruas João Américo e Tiradentes, o que vai reduzir sensivelmente os problemas de enchentes. Outra grande novidade será o início da operação do novo sistema de limpeza pública, com um conceito diferente de coleta seletiva que vai integrar ainda mais a cooperativa e os catadores – ou melhor, agentes ambientais – em toda a cidade.

Sei que, quanto mais fazemos, mais seremos cobrados. As responsabilidades são minhas, como prefeito, mas quero compartilhar com toda a população as nossas conquistas, e conto com a participação de todos para que, quando fizermos o balanço de 2010, possamos comemorar muito mais.

Fronteiras

Já há algum tempo um tema vem me perseguindo, e quanto mais tento entendê-lo mais dúvidas e questionamentos surgem. Em uma palavra, é fácil: “fronteiras”. Mas a diversidade de significados que ela abarca é algo que intriga e instiga – tenho certeza de que muita gente, com muito mais propriedade do que eu, já tentou destrinchar o assunto, mas quero apenas registrar algumas reflexões.

Em princípio, encaro o tema como contraditório: ao mesmo tempo em que vivemos cercados, literalmente, por fronteiras físicas, culturais, sociais, econômicas, é nossa obrigação, até mesmo um imperativo, lutarmos para derrubar essas fronteiras e aproximar as diferenças (a maior riqueza e beleza da humanidade não está, exatamente, na diversidade?).

Esse imperativo, porém, se impõe com maior força na atual situação em que me encontro: como prefeito, como agente público, preciso olhar a cidade como algo orgânico que, por mais que as circunstâncias criem “fronteiras” internas, é formada por um conjunto de atores que necessariamente precisam se interrelacionar. Não podemos, por exemplo, incentivar a concretização das fronteiras invisíveis dos nossos preconceitos na forma de condomínios fechados, murados, tal como ilhas estéreis que impõem fronteiras físicas e alimentam a segregação – dependendo do lado que se esteja, a fronteira é a que demarca o exílio, a exclusão, dentro da própria comunidade.

A contradição maior é constatada quando notamos que algumas fronteiras são absolutamente necessárias para a manutenção de uma ordem mínima de civilidade, mas o instinto nos impele à transgressão e ruptura dessas fronteiras, seja mesmo pela articulação entre distanciamentos e semelhanças, diferenças e conexões, tanto físicas (geográficas, espaciais) quanto subjetivas (culturais, sociológicas etc.).

É interessante notar como “cidades de fronteira”, ao subverter e transgredir a própria fronteira, permite o intercâmbio com “o outro” e alimenta a troca de experiências, vivências, costumes, enriquecendo ambos os lados – são espaços por excelência de troca e de encontro. Ao permitir, no entanto, a proliferação de condomínios de ricos e pobres, a partir da construção de fronteiras físicas que distanciam, somos no mínimo coniventes com um processo que nos desumaniza, e desumaniza e empobrece a sociedade como um todo. O individualismo se materializa de maneira forte e triste, e as fronteiras revelam não apenas a separação por muros, mas por preconceitos, falta de cultura de paz, demonstração de poder, medo do outro, medo da violência, medos e mais medos, muitos sem explicação.

Da mesma maneira, e partindo do mesmo princípio, os próprios municípios precisam se perceber como órgãos de um corpo maior e, sem desprezar as diferenças e contrastes (pelo contrário, valorizá-los), pensar conjuntamente o planejamento de inevitáveis conurbações. Muito provavelmente, as respostas existem. Talvez, mesmo, o que precisemos seja mudar as perguntas…

P.S.: sei da relevância e da extensão do tema. Este texto é apenas um registro de anotações e pensamentos esparsos, que pretendo desenvolver melhor daqui para a frente.

Cultura além-fronteiras

Nós, aqui de Jacareí, temos o privilégio de contar com o Museu de Antropologia do Vale do Paraíba, reconhecido por seu valor histórico e cultural. E a nossa Fundação Cultural tem se esmerado em ampliar e variar as opções e exposições, valorizando ainda mais esse espaço único.

Agora, o MAV passa a abrigar mais uma exposição de porte, contando com artistas nacionais de obras também de artistas de Portugal, França, Itália e Finlândia. Essa exposição é mais do que ilustrativa em um aspecto: a cultura e as artes são, por excelência, formas de integração entre os povos. Ao se utilizar de linguagens visuais e, muitas vezes, não-convencionais, as artes extrapolam fronteiras e se fazem entender por quaisquer povos.
Abrir as portas do Museu ao público de Jacareí e de outras cidades é, para nós, motivo de orgulho – é fazer de um espaço público um espaço realmente democrático, aberto à divulgação da cultura nos mais diversos gêneros, etnias e tendências estéticas.

Esta é, assim, uma maneira de o MAV proporcionar aos visitantes uma viagem além-fronteiras, mas ao mesmo tempo permitir um diálogo entre a nossa própria história e nossos artistas locais com expressões e visões de outras partes do mundo, o que nos enriquece a todos. Incentivar essas manifestações é valorizar a multiculturalidade, e este é um dever que assumimos publicamente.


Serviço – Exposição de arte contemporânea MundoMav de 6 de julho a 6 de agosto.
Local: Museu de Antropologia do Vale do Paraíba - Rua XV de Novembro, 143, centro. Tel. (12) 3953-3574.
Aberto das 9h às 16h45, de terça a domingo.
Visitas noturnas (escolas, empresas, instituições) podem ser agendadas.

Índice de civilidade

Leio, no blog do Mílton Jung, um texto do jornalista Fernando Gallo. Ele propõe que, ao lado do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), passemos a avaliar nossa sociedade pelo IC (Índice de Civilidade). É para se pensar – no final, ele conclui que, na verdade, tal índice seria bem menos complicado de se medir se nos lembrássemos que bom senso, gentileza, generosidade são valores tão importantes quanto esquecidos. E eu, como estudante de arquitetura e urbanismo, vejo ainda que ele toca em pontos de como as cidades foram construídas de maneira a deixar ainda mais esses valores de lado. Reconstruir as cidades, mas também nos reconstruirmos, é um passo valoroso para que ampliemos nosso IC. Tomo a liberdade de reproduzir o texto na íntegra.

Civilidade
Por Fernando Gallo

Um filósofo – não sei qual – disse certa vez que o grau de civilidade de uma cidade pode ser medido pela largura de suas calçadas.

A largura de suas calçadas, quem poderia imaginar?, e no entanto faz tanto sentido, mais espaço para as pessoas, menos para as máquinas, abrir lugares para os calçados, que barulho não fazem, ou fazem menos do que motores, engrenagens, e toda sorte de componentes ruidosos que se põem a invadir os nossos ouvidos, mal não haverá em mais dignidade ao trânsito dos pedestres, tão alijados do processo de ir e vir nessas calçadas estreitas, a desviar uns dos outros, dos postes, a transitar pelo meio-fio, o risco de cair na pista e lhe passarem as rodas por cima a qualquer momento.

A largura das calçadas deveria integrar um índice de civilidade, mais ou menos nos moldes desse que chamamos IDH, utilizado pelas Nações Unidas para auferir o desenvolvimento humano nos países, alvissareiro que pensadores bem intencionados tenham conseguido estabelecer alguma humanidade e ciência nisso que temos chamado economia, e que trata tudo tão vagamente, o mercado, o crescimento e tantas outras palavras que de exatas nada têm, mas nos perdemos um pouco quando falávamos de nosso IDH, ou melhor, de nosso IC, Índice de Civilidade, este muito menos complexo do que aquele, sem fórmulas matemáticas nem metodologias tão acuradas, vamos nos valer apenas de nossa observância, nossa vivência, disso que alguns chamarão empirismo.

Estando certo que o ponto de partida de nosso índice serão as calçadas, podemos passar sem grande dificuldade para os outros componentes, mais difícil é começar, usaremos este chavão para deixar claro que as palavras têm esse poder de por em ordem os raciocínios, que os pensamentos vão se encadeando à medida que os vamos imprimindo no papel, embora papel disséssemos na época das máquinas de escrever, agora deveríamos dizer LCD, sigla anglófona para as telas modernas de computador, veja o leitor que dizíamos que os pensamentos vão se encadeando à medida que o texto vai saindo - diremos assim para simplificar - e acabamos por nos dispersar.

Vamos logo, então, Machado dizia que o leitor tem pressa, embora a pena corra devagar, não é o nosso caso, blogs, ao contrário dos livros, não devem se prestar a longas divagações.
Pois passaremos logo às nossas outras proposituras: todos os assentos do transporte público serão preferenciais, assim tentaremos corrigir o bem intencionado erro do cidadão que instituiu os bancos exclusivos, e acabou por excluir dos idosos, das grávidas, das pessoas com deficiência e congêneres a preferência que lhes devemos em todo e qualquer assento. Também temos profunda crença em que toda e qualquer pessoa nascida do sexo masculino deverá ceder seu assento para toda e qualquer pessoa nascida do sexo feminino, acalmem-se as feministas, não estamos a tratar de fragilidades, temos tido, aliás, provas cabais de qual é o verdadeiro sexo forte, dizíamos, porém, que não é de fragilidades que se trata, mas de gentileza, costume que inadvertidamente começamos a abandonar tão logo queimaram o primeiro sutiã.

Gostaríamos de ver dobrado o tempo em que permanecem abertos os faróis de pedestres, mal eles têm permitido que nós cruzemos as ruas, que dirá os mais sedentários, as velhinhas, as pessoas com restrição de mobilidade, essas gentes para quem pouco serve esse sistema de governo a que nos habituamos chamar de democracia, talvez devêssemos chamá-lo oligocracia, pouco tem servido à maioria, que dirá às minorias.

Incluiremos também no IC as filas, tanto de um lado quando do outro, deixem-nos explicar, daquele outro lado do balcão estão bancos, supermercados, redes de comida rápida, instituições que vivem a nos privar de um de nossos bens mais preciosos, o tempo, a saber, tão valioso em nossos dias que consta do dito “quem trabalha não tem tempo pra ganhar dinheiro”, muito haveria que se dizer sobre esse ditado, não fosse o tempo do querido leitor tão precioso. Deste lado do balcão, por sua vez, estamos nós, que temos desrespeitado a ordem das filas, seja descaradamente, somando-se a ela pela frente ou pelo meio, seja saindo de posições desfavoráveis para abrir uma nova fila quando um novo caixa é aberto. Neste caso, averiguará o IC o quanto aqueles estarão nos privando de tempo e o quanto nós teremos respeitado a ordem original de chegada, costume um tanto medieval, mas não haverá nada mais meritório nestes casos do que simplesmente chegar primeiro.

Falávamos sobre a preciosidade do tempo, e será apenas por este motivo que, ao menos por ora, estas linhas vão escassear, há que haver bom senso para não cansar a platéia, embora muito mais houvesse para dizer.

Uma consideração ainda antes de partirmos: talvez esteja o leitor a pensar em como pensamos implementar todas as proposições apresentadas, se por força da lei, ao que recordaremos tratar-se de civilidade, civilidade que se faz com bom senso, gentileza, generosidade e outros que andam por aí escanteados, mas que nunca se fizeram por força da lei, senão pela bondade humana.
Ficam aqui as despedidas e o convite ao leitor, que venha nos dizer o que faria por mais civilidade aqui, ali, em qualquer lugar.

Fernando Gallo é jornalista da rádio CBN e um dos autores do Blog Miradouro

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